Wednesday, January 16, 2019

IPSIS VERBIS



O acme da hora anónima
duvidosa, branda e estóica
que se despenha muda e indómita
no íntimo da nossa incerteza

Como tu 
essência errónea
de névoa queda e fugitiva
na manhã imensa e informe

(pausa)

Já nada importa
ao instante silencioso
à remota presença feérica
onde já tudo pereceu

Cerimónias inquietas
prenhes de melancolia
esmaiadas em quietude
qual pranto de vazio rotundo

Hirto azo de luz ostensiva
que contempla a nuvem oculta
na noite quase vestida
de vazio, de tom e de voz

Assim era o verbo
novilúnio, ubíquo
e esquálido

no escopo do firmamento

(pausa)

Tal como a semente douta e astuta
tão só reclama a terra




Thursday, December 13, 2018

RECITATIVO




Indício de sol
luz jactante
diligente

Uma espécie de idílio
como a imobilidade da rua deserta


Inverno no campo
a história move-se
com nuvens prometidas

Ao longe
tão ao longe...

Levemente
avisto o teu contorno
e gosto do teu cheiro

Não fora a explicação das cores
e tudo no mundo seria diferente

Wednesday, December 12, 2018

SIMETRIA






Local incógnito sem memória
despido de passado
nú
ávido de um qualquer porvir


Manhã anónima
fragmento de nada
e o fundo do corpo
a exortar o silêncio


Agradeço ao mundo
as sílabas melancólicas
esse lugar primitivo...
e fazes parte da paisagem


Guarda este segredo
no âmago da tua equidade
utópica...  bucólica
idílica


O teu sorriso latente
categórico
e imperativo
sempre à beira do caos



Monday, November 26, 2018

DUAS CORES



A palavra Amor



Talvez a melhor forma de entender o seu significado

Intacta



Deliberado esquecimento

Ou devoção e gratidão?





Duas aves e a alegoria do mundo



Hesito no que devo ou não ver

Ou mesmo ouvir… 

Partir



Talvez um efeito secundário onde a incisão cresce insegura



Qual cesura que se aparta da luz em segredo



Ou o clarão! Que irrompe do silêncio e anuncia o Outono





Vem e vê

Sunday, February 5, 2017

NÃO EXISTIR



Para além do tempo

e da lentidão das metáforas



Resta a penumbra do esquecimento

na tua respiração...



O que a terra me ensinou

sem desvendar o sonho

Tuesday, September 15, 2015

SETEMBRO



Nuvens negras


persistem em ficar


perenes





Imunes à sofreguidão da luz


soçobram


com ardor





Sublimadas

porfiosas

corrosivas





Adormecidas 


descansam no meu dorso


em letárgico  sono 


profundo





Portas entreabertas 


que se fecham


uma a uma


com estrondo





Erro por veredas 


ermas e profundas


sinuosas


sem fim





Através de mim


devorando-me aos poucos





Identidade autofágica






Onde a noite e a lua se digladiam


feridas pelo orgulho


de lágrimas de sangue


sem gestos de clemência





Desertos salgados


lábios longínquos…





Dirijo o olhar noutra direcção


onde o sol exorta 


em consciência





Contemplo o mar


entendo suas preces


temerosas


carentes de rancor






Avisto locais desabitados


inóspitos


onde não se vislumbram sombras



nem ódio





Promessas expectantes


clamam moribundas




(pausa)





O fio do destino


quebra-se silenciosamente





A omissão de qualquer explicação


sinédoque da incompreensão





A fatalidade ecuménica


e o ímpeto da paixão



Saturday, September 5, 2015

3 FASES



I


Carácter distintivo


Essência singular


Esquiva





II


Fulgor feliz


Entidade fogosa


Rara e convergente





III


Sopro subtil


Desliza ao vento


Passa em silêncio





Voa com as nuvens