Mel
Fel
Cruel
Rasgo o passepartout. Evado-me da moldura.
Abro a janela. Olho o céu. Hostil ao dia.
Atravesso o muro. Que se torna nocturno.
Para lá da bruma. E dos encontros imprevistos.
O prestígio do luar. A demanda infinita.
Acordaste a metáfora já sem nome.
O amor e o mar aconchegavam-se.
Colava-me à luz. Encostavas-te ao silêncio.
E as árvores e os riachos riam-se.
Connosco.
Aqui mesmo. Ao longe...
Guardei fundo as noites onde a inocência espreita
A marca dos teus pés
O lado das árvores
Os portões ocultos
O ritmo nocturno
Os murmúrios vinham de longe
Das esquinas que sustentavam o mundo
Quando as estrelas aceitavam o dia
E o impossível das nuvens era a forma desejada
Rompe a Primavera e o declínio ulula em silêncio
A dor seduz as noites que teimam em gritar
Reedifico sombras que tardam em esmaecer
Escalo colinas íngremes e atento as aves morosas
Procuro nos confins insurretos a lisura das fábulas
O meu seio dissipa-se na brandura da última seiva
A pertinácia expiada na jugulação
do ocaso fugaz
Coagido pela única gota de sangue
do raio silente
Desnudo-me e persigo a resignação
de face serena
O que deveria ter sido dito
o que deveria ter sido dito no cair do tempo
o que deveria ter sido dito ao tocar as margens da inocência
A alma vazia inexorável do último suspiro
Lágrimas salgadas deslizam pelos confins
Ilusão exaltada com prevista duração
A anatomia de um gesto ausente que resiste
Entre a bruma e a memória
Muito para além do infinito
As nuvens que ficaram por ver
As flores que ficaram por colher