Wednesday, September 23, 2020

IMAGINÁRIO

 



Lábios sem nome ao ritmo de uma viagem intangível 

Prodigiosa a vida resiste aos dias lentos tímidos e alheios

Entre as árvores irrompe a doçura refém de um olhar longínquo

Vinda de algures uma voz fica na retina ardente do desejo


Saturday, September 19, 2020

BREU



um cheiro miasmático

um aroma morbífico

um odor familiar


o perfume da insídia?


posso não saber o que sinto

mas sei o que não sinto


Friday, September 18, 2020

EM CONCLUSÃO

 



O abismo bate à porta. Nos teus lábios. O íntimo sentido dissipa-se em declive. A folha caduca desliza na distância. Como nuvem abandonada à avidez dos ventos. Outrora os passos que demos eram poesia. E tudo se reduz à cúpula sombria. 

A melodia do destino. Dentro de cada noite. 

Thursday, September 17, 2020

FÁBULA

 



É chegado finalmente o tempo. As noites nuas são imensas. Sonhos deambulam no fundo. Invento o que apreendi. A verdade em carne viva. Aconchego-me à presença humana. Sob a cúpula estelar. Possuo as estrelas. Reinvento o fogo. Pressentimento denso e ardente. Real é o campo de flores. Deslumbrado ao colo da mãe. Ardendo em impetuoso idioma. Balança a frágil hostilidade. Ruína que estremece e não reage. Não deixes que te conheça. O calor lépido da vida. O ânimo íngreme de um beijo. A água turva já não replica. Senda sufocada pela ausência. O peso nebuloso das fronteiras. Do riso exíguo que nos imita. A vida suspensa que me espera. Perco-me da realidade. Um espaço oco dentro de mim. Era uma vez uma fábula. A natureza do escorpião.


Saturday, September 12, 2020

AB IMO PECTORE

 



sofisticados precipícios

na distância da noite

como nos livros


enigma iterativo que oscila 

entre pedras e melodias

luas cheias de som


sem que os passos me levem

indiferente à luz intraduzível

pergunto-me como amo


ainda

perdido

de repente

Wednesday, September 9, 2020

RECOLHIMENTO




As folhas do tempo ilegível

um tempo que não recua

que nunca mais volta


Tempo a que chamo nostalgia

Tempo a que chamas ilusão


Um caminho inundado de luz...

de momentos irrepetíveis 

(como nos sonhos)


Duração esquiva

Período ignoto

Prazo inefável 


As nuvens ficam pelo caminho

assim fiéis ao destino

como branco o acto do amor


As ondas 

A pele 

A distância das noites


O tempo 

dos dias que fogem

da morte que vem depois



 

Saturday, September 5, 2020

ANÁTEMA

 



Ainda creio no vento







Esperei o sorriso nos teus olhos 

Neste silêncio perpétuo da solidão


Um gesto impalpável de dor

Na lentidão da indiferença sem nome

Fico suspenso na voz da minha infância


Ao regressar da longa viagem

Abraço o tempo que me resta




Ainda creio no vento