Voyage sans retour
étrange et pénétrant
qui fait brûler le vent
où le feuillage se reflète
Le soleil écrasant
du bonheur assoupi
attend la volonté
d’un plus hault vol
… la volupté des nuits
Voyage sans retour
étrange et pénétrant
qui fait brûler le vent
où le feuillage se reflète
Le soleil écrasant
du bonheur assoupi
attend la volonté
d’un plus hault vol
… la volupté des nuits
J’habite le dernier mot
dans le tranchant du jour
Les paroles sont aux fenêtres
et les jours à pas comptés
Je retrouve la vue
de la nature impuissante
On met dans le silence
le pousser des nuages
Une voix d’écume
presque des parfums
Et ainsi infiniment
avec l’aube au loin
envahi par les orages
suspendu aux aiguilles du temps
je ferai un voeu très solennel
òu la lumière métaphorique s’impose
le départ vers l’inconnu
m'a souri avec grand soin
comme l'attente d'un regard
manquant de vocabulaire
emportant tous mes incompris
le coeur balancera à nouveau
pour toujours
en sourdine
Rasgo o passepartout. Evado-me da moldura.
Abro a janela. Olho o céu. Hostil ao dia.
Atravesso o muro. Que se torna nocturno.
Para lá da bruma. E dos encontros imprevistos.
O prestígio do luar. A demanda infinita.
Acordaste a metáfora já sem nome.
O amor e o mar aconchegavam-se.
Colava-me à luz. Encostavas-te ao silêncio.
E as árvores e os riachos riam-se.
Connosco.
Aqui mesmo. Ao longe...
Guardei fundo as noites onde a inocência espreita
A marca dos teus pés
O lado das árvores
Os portões ocultos
O ritmo nocturno
Os murmúrios vinham de longe
Das esquinas que sustentavam o mundo
Quando as estrelas aceitavam o dia
E o impossível das nuvens era a forma desejada
Rompe a Primavera e o declínio ulula em silêncio
A dor seduz as noites que teimam em gritar
Reedifico sombras que tardam em esmaecer
Escalo colinas íngremes e atento as aves morosas
Procuro nos confins insurretos a lisura das fábulas
O meu seio dissipa-se na brandura da última seiva
A pertinácia expiada na jugulação
do ocaso fugaz
Coagido pela única gota de sangue
do raio silente
Desnudo-me e persigo a resignação
de face serena
O que deveria ter sido dito
o que deveria ter sido dito no cair do tempo
o que deveria ter sido dito ao tocar as margens da inocência
A alma vazia inexorável do último suspiro
Lágrimas salgadas deslizam pelos confins
Ilusão exaltada com prevista duração
A anatomia de um gesto ausente que resiste
Entre a bruma e a memória
Muito para além do infinito
As nuvens que ficaram por ver
As flores que ficaram por colher
Na noite de rosto húmido
desvelo o rastro inexorável
taciturno
no declive da solidão
Livros despidos
de suspiros comuns
inequívocos à resiliência
A precaução em cada passo
em direcção ao abismo atávico
fatal
Horas intrépidas
vazias
imperecíveis de encontros fortuitos
vagos de luar
e de mim
O frio nas palavras tortuosas
indecifráveis e sem complacência
perscruta o silêncio inequívoco
impérvio de verdura tímida
despojado de tenacidade
Nas margens de cada noite
moldo o espaço de mistério perpétuo
a memória estende-se no tempo
e surgem brancas contas de vidro
amando
firmes
inviamente
na vigília das pálpebras
irremediavelmente a germinar
a mais impura tormenta
(entre parêntesis)
escrevo a noite
sem contrição num olhar profundo
o dia cauto mostra-me os sinais
do silêncio que há num grito
sinto o tacto suave em redor
da irregular escrita no vento
a chuva lava-me os sentidos
os ultrajes dissipam-se despedaçados
resiste o vestígio de nenhum gesto
cravado firme em toda a memória
à distância